domingo, 18 de junho de 2017

Silêncio...

Não me peças silêncios nesta hora.
Se só resta o eco aos montes!
São as palavras as grinaldas de flores.
Enquanto o silêncio atrofia…!

Não me peças silêncios.
Só me resta o olhar.
Enquanto posso chorar.
O silêncio será senhor…!
Na terra coberta de cinza.
Nas asas do vento os gritos silenciados…!
Não será a inercia… o mal?
É medonho é mais cinza que a cinza.
Mesmo assim: Voará na voz dos vivos…
Será dor, raiva ou impotência.
Mas será a memória.


domingo, 11 de junho de 2017

Quadras de Santo António

Ó meu rico Santo António
Eu não te peço um marido
Quero dinheiro para o gasóleo
Que isto está muito tremido.

Já tiveste dias melhores
Mas és da minha devoção
Temos falta  de carcanhois
Para a sardinha e o pão.



sábado, 10 de junho de 2017

Quem sabe...

 Porque será que sinto que a poesia não é minha?
Estou despojada deste sentimento de posse.
Sei que sou o recipiente que fertiliza a emoção.
A marioneta que alcança a imaginação.
O portal onde dançam os receios ou os sonhos.
Por tudo isto não sei o que é isso; da minha poesia!
 Não…!
Quando os versos são caravelas em mar revolto de ambição.
Quando os sentimentos são fantoches na minha mão.
Mesmo que as palavras agonizem, estou imune à pena.
Sendo a própria pena a ferramenta de trabalho.
E as alegrias as orgias onde deleito o prazer.

Porque será que sinto que a poesia não é minha?
Quem sabe… Porque são os versos os filhos bastardos
na roda da sobrevivência!


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Deixa...

Deixa que adormeça nos teus braços.
Mas não é para dormir só por dormir.
Tal como os pardais pelos silvados.
Deixa que me embale no teu sentir.

Já que os passos andam tresmalhados.
Tal como uma criança e o seu sorrir.
Deixa que acalente ágeis bailados.
E que neles surjam estrelas a provir.

Anda o tempo sempre de enxurrada.
Andamos nós sempre em roda-viva.
Esquece meu amor os desencontros.

Não passam de passos apresados.
Quase sempre escondem os cansaços.
Mas não é isso que conta nesta vida. 



quinta-feira, 8 de junho de 2017

Quero um abraço ou um beijo por inteiro...

Não quero perder tempo que não tenho.
A vida é errata… caminhada é contenda…
Basta olhar em redor com algum engenho:
Para perceber o sentido da imensa lida.

Por isso: Deixo ao tempo qualquer lenho.          
Na fogueira quero amor, quero maresia.
Quero um abraço ou um beijo por inteiro.
Metades: deixo às laranjas essa fantasia.

Chama-me louca, de que importa o delírio.
Quando a chuva cai na terra alaga o chão.
Passam semanas e floresce no campo o lírio.

Tal como ele… também me visto de roxo!  
Das suas raízes amasso o meu escuro pão.
Sou como sou… água ou vinho de fino mosto!


Isto sou eu a pensar...


Sou uma pobre poeta
Sem ter onde cair morta
Mesmo andando em linha recta
A curva me bate à porta.

Quatro versos pequeninos
Deles faço o meu destino
Embora sejam franzinos
São a capa de burel
Que teço em tear  de menino.

São Samarra de ovelha negra
São os pés e os sapatos
Sobre as pedras a granel
Rasgam as solas dos pés
Quando correm em viés
As rimas são como o mel
P`las planícies alentejanas
São gaiatas as maganas
São frias como a mortalha
São foice e são navalha
Cobrem a terra de sangue
De manhã ao por do sol
Tristes rimas são lençol
Com buracos na largura
No comprimento a fissura
Onde falta claridade
Ser poeta: Que vaidade!
Sempre que me olho no espelho
Que de tão frio e matreiro
Finge que não me vê
Vá-se lá saber, porquê…
Mas que horrível criatura
Esquece que é desventura
Esta sina endiabrada
Os meus versos são a estrada
Que me levam a nenhures
Enquanto a alma vagueia
Por olimpos nunca vistos…!

Diga lá se é capaz
De contrariar a contenda
Estas rimas são cartaz
Correndo ladeira acima.

É muito mais do que sina
Comigo dormem na cama
Mas se julga que me engana
Vive no mundo da lua
Esteja vestida ou nua
Quem leva a melhor sou eu
Escrevo versos como milho
Em capoeira de terra
Sou eu que mando na safra
Seja qual for o sermão
Meus versos de mão em mão
Vadios pelas ruelas
Ou em belas caravelas
Galgando o oceano…
Sonetos embaciados
Outras vezes são brocados
Quando os escrevo a preceito
Os meus versos são pecado
De columbina arisca
Quem não arrisca… Petisca?

São pelintras, são engano
São tudo o que eu quiser
Eu e eles mano a mano…
Só servem pra meu prazer!

São a dor e o crer
Num mundo Destrambelhado
Na minha alma são fado
Um malmequer amarelo
O que é que hei-de fazer
À arisca criatura
Meus versos são desventura
Nos dias frios de inverno
No verão são o inferno
Quarenta graus de calor
Dos pobres são o clamor
Dos amantes a paixão
Andam sempre em contramão
Malditos como um exame
Mesmo que haja desmame
Voltam sempre ao mesmo sítio
O meu peito é o postigo
Das estrofes endiabradas
Tal as corças pelas serras
Galgam vales e outeiros
Já viram como são matreiros
Canto até à eternidade
Inchada com a vaidade
De rimar até mais não
Que não haja confusão
É tudo o que lhes peço
Não liguem a este verso
Que está igual ao dia
Olha a nuvem, quem diria
Que se atreve a tapar o sol
Esta contenda é paiol
Dinamitado com garra
Se não fosse triste a farra
Seria opereta na praça
Mais aí perdia a graça.
É melhor arrumar as botas
Já que as ideias são tortas
De paz e amor carece
Qualquer verso que enaltece
Mas para ser curta e precisa
De quatro versos composta
 Deve a rima ter sentido
Tudo o que tenho vivido
É bitola e é peão
Rodando em qualquer chão
Olhando mesmo sem ver
Faço versos por fazer
Talvez sim… ou talvez não…

Mas que grande confusão
Começa a perder o sentido
Olha… é tão fraco o gemido
Que chega no vento suão
Mesmo assim é de um irmão
Que tal como eu é poeta
Homem rude, calejado
No Alentejo gerado
Das quadras fez sua sina
Quando eu era pequenina
Ouvia-o embevecida
Dele tomei a medida
O fio-de-prumo a bitola
Jamais darei esmola
Em qualquer rima ensebada
Este saber é enxada
Da cultura popular
Por isso vou me calar
Que os versos respiram, estão vivos.
No vento são os carpidos
De um povo aventureiro
De cunho nobre e certeiro
Escreve baladas com dor
Nas mãos se esvai o suor…!

Aqui vos deixo um pedido
Em verso triste, fuinha
Não deixem perder o sentido
Da poesia popular
Ajudem-na a ser rainha
Por mais pobre que seja o vestido
No Alentejo é sonhar.





quarta-feira, 7 de junho de 2017

Pintelhos

Palavra de nove letras
Uma só interpretação
Olha o estado da nação..
Catroga, atenção às tretas.

Eu fico abismada
Palavreado ou senão
Abriu a boca, saiu cagada
E nem lhe vi aflição!

Só pode ser o mofo.
nas ideias regressivas.
Diga-me lá se faz favor
Já se viu na fotografia
Confesso que até faz azia
Esse palavreado balofo.

Que queira ser ministro
Não lhe posso levar a mal
Agora... que faça arraial
À custa dos portugueses
Olhe: não somos fregueses
Do botequim da esquina
Eu acho que a naftalina
Lhe deu a volta ao juízo.

Atenção senhor Catroga
Ao abrir da sua boca
Ainda lhe entra um guizo
E se afunda na piroga.

Vai ao fundo, vai ao fundo
Lá diz a velha cantiga
Senhor Catroga fique mudo
Ou acorda a lombriga

Reparei que o atazana
A cada novo discurso
Pintelhos ou pouco siso
Olhe que a retórica o esgana...

terça-feira, 6 de junho de 2017

Horizonte…

Se eu não fosse ousada na expectativa…
De um dia com muito mais do que sol.
Se eu não procurasse a alternativa…
Quem sabe do receio teceria lençol.

Se eu não fosse um tanto aflitiva…!
E não teimasse em me manter no rol…
Dos que vão além da simples directiva.
Eu sei… não olharia de revés o paiol!

O mundo está muito além do horizonte.
Os medos podem ser traves ou nuvem.
Podem se riachos insidiosos e sem açude.

Mas jamais serão o meu burel ou ponte.
Se até as pedras miudinhas a terra retém.
E as asas de um sonho são sempre a fonte.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Uma semente térrea…

No cume do mundo uma semente térrea,
uma cascata divina, um roseiral em flor.
Beijada p`la brisa com extrema ousadia.
Se encobrem as penas, se esfuma a dor!

Sempre que a fantasia se atreve e baila;
uma criança sorri. Então: onde está a cor
no seu olhar aguado? Choro ou agonia.
Farrapo torturado onde escasseia o amor.

Dia um, ou dia primeiro na compaixão?
Só mais um dia... Pintalgado e diferente!
É este Junho que pernoita sem sol ou pão.

Não… para quê chorar? O corpo dormente
não sente. Não… descura, tresloucado coração…!
Finge: Aquela criança não é triste ou indigente.





sábado, 27 de maio de 2017

Calmarias estivais…

Saberás o peso da emoção quando sinto
o bater do meu coração, mal te olha.
O silêncio pode ser senhor do recinto.
E a palavra pode ser xaile ou capa.

Este amor a bailar é senhor do meu peito.
É delicado sentir… e até a alma canta.
Em trovas de sol maior… Amor-perfeito!
Ou pedaço do azul do céu que te embala.

Não… não digas nada, as palavras são demais.
Os gestos são a peneira que filtra o meu ser.
És tu vendaval… calmarias estivais…!

De mil balões coloridos é composto o crer.
Sempre que te olho por entre os trigais.
Meu amor: és tu! O que é que hei-de fazer.


Pétalas mortas…

Tu… que olhas com ligeira estranheza.
Qualquer pé roto, enquanto pisas o palco…
Sem reparar no ponto… ou que julgas proeza:
Esse olhar que nada vê. Embaciado p`lo cisco!

Não sei se é obra da própria correnteza…!
Pode ser areia a quem falta o chuvisco.
Ou então: será vazio, com toda a certeza.  
Aos olhos do ponto… é cordel sem grafismo.

Ignoras; por mais feio que seja o gaiato:
Pode rir em gargalhadas estrondosas.
Tal e qual a maresia espalhada p`lo vento.

Desconheces; que até um pé sem sapato…
Se atreve por estradas ladeadas de rosas.
Enquanto as pétalas mortas: São só aparato.


domingo, 21 de maio de 2017

Vila Viçosa (Décimas)

Mote ( Sr. Venâncio)
                                            
Com artes e culturas
À história pertences
Grupo de enormes figuras
Ilustres Calipolenses

I
De branco anda vestida.
Princesa, menina, mulher!
Em pétalas de bem-me-quer.
A sua beleza é vivida.
Em mármore é pedra esculpida.
Berço de honrosas bravuras.
Na ponta da espada, lonjuras…!
Dando ares a laranjeira.
Vila Viçosa é pioneira:
Com artes e culturas!

II
A sua herança é de mestre.
No rol tem doutores e pintores.
Foi até berço de nobres.
Valentia que enaltece.
Em memórias que reparte.
Nas ameias do castelo.
Os papiros são novelo.
Que me deixam a cismar:
Este cunho é de encantar.
À história pertences…

III
Donzela de olhar trigueiro.
Airoso traje a rigor.
O laranjal em flor;
é pajem namoradeiro!
E se o tempo é passageiro,
o sol é calmaria.
Meus amigos quem diria!
Ergue-se das calçadas o grito:
Vila Viçosa é talento.
Grupo de enormes figuras!

IV
Aqui; nasceu Florbela.
Rainha da poesia!
O seu dote é nostalgia.
E há muito que é janela.
Seus versos são a ruela
Porta de entrada do mundo.
Mas que legado fecundo.
A par com o Passo Ducal.
Estandarte de Portugal.
Ilustres Calipolenses!





quinta-feira, 18 de maio de 2017

Sol de Verão...

Hoje olhei uma nuvem no céu e vi o teu rosto!
Sereno e gentil, como, só tu sabes ser.
Nas asas do vento senti o teu cheiro,
e nas flores amarelas que matizam as cearas,
o teu sorriso aclarou o dia.

És a rocha que ampara o cerne do ser.
És o chão ou o rio, meu bem-querer.
És o amor e o sol de verão.
Se até nas lembranças, tu és a paixão.

Que ilumina os meus passos.




terça-feira, 25 de abril de 2017

Rubro querer...

Se em todos os cravos vermelhos,
 a memória fluir tranquila.
Os sonhos jamais serão velhos:
Se gravados na alma em rubro querer.

De que importa cravos vermelhos,
quando a esperança é uma criança,
raio de luar ou mudança…!

Lá atrás um novo rumo…!
Será dos netos a herança,
a bitola o fio-de-prumo.
Já que Abril é confiança!

Acredito no futuro.
Deixo aos cravos as dores de parto,
E as vontades a cumprir…

Deixo aos cravos o sorrir…!
Ao romper da madrugada.
Portugal o meu sentir:
É bandeira desfraldada!



domingo, 23 de abril de 2017

Fogosa magia…

Circula no ar uma fragrância a verde pinho.
Será pele morena ou gosto a fruta madura.
Rodopia então este sentir e já adivinho…
Que a paixão pode ser luz e é cisterna!

Sublime constância ou largo caminho…
Traçado na areia sem temer lonjura.
E se a cacimba se abeirar de mansinho…
Que traga no seio uma réstia de ternura.

Já que este sonho… tão antigo: rodopia…!
Que mais parece o voo de uma borboleta.
Nas suas asas um sorriso, fogosa magia.

Utopia em vocábulos ao romper do dia.
Esperança presa nas asas de um cometa…
À espera dos teus olhos…A minha nostalgia!





quinta-feira, 13 de abril de 2017

Tempo de Páscoa...!

Assegura que o amor é mais que palavras.
Que é força e é crença… Muita sabedoria.
Aqui te peço que as lágrimas brotadas.
Sejam um manto de esperança e de alegria.

Eu sei que as palavras há muito estão gastas.
Assim acontece ao presenciar a razia…
Que o homem semeia em cearas vastas.
De fome e de dor … Infame ventania!

Neste tempo de Páscoa que a Tua Paixão…
Se transforme em vida, num mundo melhor.
Mesmo que os homens cismem na negação:

 Jesus, eu te peço… Desvia qualquer dor.  
Dos povos que morrem na segregação.
Das guerras ao longe e na falta de amor.  


terça-feira, 11 de abril de 2017

Sonhos sem limites...

Até na contemplação das estrelas:
Desenho os teus olhos a tinta china.
E era vê-los… Era vê-los como velas…
Encabeçar o sentir p`ra além da colina.

A Ursa Maior… rainha das caravelas,
é tão antiga mas parece uma menina,
ao pé dos teus olhos…! Até os cometas
correm sempre apressados e era vê-las…

As lembranças, a bailar numa só noite.
Em que o céu beijou a terra, atrevido.
Em que o vento suave e em deleite…

Abriu as asas, sempre convencido…
Se os sonhos erram sem qualquer limite.
É porque o tempo é um marco estabelecido


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Caminho cego…

Vento…!
Tu não me grites.
Nem me apontes encruzilhadas…
Se o caminho é em linha recta.

Deixa que caia… e arraste a lama.
Atrás dos meus passos.
Deixa que risque em rasto cansado:
As notas de um fado.

Pode ser triste, pode ser cego.
Pode até adormecer sem luz ou sol.
Mas… é o meu lençol.
O qual; não renego.

Não me grites:
É esse o caminho…
Não:
Quando em profunda escuridão…
Sei que existem pirilampos!


sábado, 25 de março de 2017

Águas paradas…

Trago sempre no peito subtil imagem…
Mesmo que seja frio o pensamento.
Deixo a porta entreaberta à aragem.
Embora me perca nesse alheamento…!

Se todas as horas podem ser miragem…
E até no deserto existe um catavento.
Deixo aos dias a força, mesmo selvagem.
É o sonho quem impele qualquer momento.

Repara nas nuvens, como são escuras!
 Mesmo assim… o sol afasta as mais sombrias.
Por isso; deixa que o coração fale mais alto.

Olha em frente, não é qualquer planalto
que corta os laços. Já que é o pensamento:
Quem sobrevoa as águas, se estão paradas…